Se o ordenado explicasse tudo, quem ganha bem teria sempre as contas em ordem e quem ganha pouco estaria condenado a uma vida financeira apertada. Não é isso que temos visto desde 2009. A diferença está noutro sítio, e é uma diferença que se aprende.
O ordenado importa. É o trabalho que traz o dinheiro para dentro de casa e ninguém constrói nada a partir do nada. Não te vamos dizer o contrário.
Mas se o ordenado fosse a explicação toda, o mundo seria muito mais previsível do que é. Todas as pessoas que ganham bem teriam as contas organizadas, um fundo de emergência confortável, poupança a render e um plano para a reforma. E todas as pessoas com ordenados mais modestos estariam condenadas, sem saída possível, a chegar ao fim da vida sem património nenhum.
Não é isso que acontece. Nem de perto.
Ao longo dos anos que levamos a olhar para contas reais de pessoas reais, vimos ordenados altos a chegar ao dia 30 a zero e ordenados modestos a construir poupança sólido, devagar, ano após ano. A variável que separa uns dos outros não é o valor que entra na conta. É o que se faz com ele. E, sobretudo, é o conhecimento que existe na hora de decidir.
O caso que abre a Psicologia do Dinheiro
Se já leste o livro do Morgan Housel, provavelmente já percebeste onde queremos chegar. Se não leste, fica aqui a história, porque ela diz quase tudo.
Ronald Read passou cerca de 25 anos a arranjar carros numa estação de serviço e mais 17 a limpar o chão de uma loja de retalho. Comprou uma casa pequena, viveu sempre da mesma forma discreta e nunca teve um ordenado que se destacasse. Morreu em 2014, com 92 anos.
Deixou perto de oito milhões de dólares. Não houve herança nem lotaria. Fez um trabalho de formiguinha de poupar todos os meses uma parte do seu ordenado, colocada em investimentos que ele compreendia, e décadas de paciência a deixar o tempo fazer o trabalho. A maior parte do dinheiro ficou para o hospital e para a biblioteca da terra onde viveu.
Poucos meses antes, conta o mesmo livro, outro homem estava nas notícias pelas razões opostas. Richard Fuscone tinha formação em Harvard, MBA, uma carreira de topo numa das maiores instituições financeiras do mundo e reformou-se ainda antes dos 50 anos. Endividou-se para sustentar um nível de vida elevado, a crise de 2008 chegou e acabou em insolvência.
A conclusão do Housel é simples e um bocadinho incómoda: lidar bem com dinheiro tem pouco a ver com inteligência e muito a ver com comportamento. Não é uma ciência exata que se domina com um canudo. É uma competência que se aprende.
E uma competência que se aprende é uma competência que tu também podes aprender.
Antes de continuarmos, uma ressalva importante
Esta história é muitas vezes mal contada, por isso queremos ser claras.
Não te estamos a dizer para viveres seis décadas com o mínimo e morreres com uma fortuna que nunca chegaste a usar. Isso não é sucesso financeiro, é outra coisa qualquer. E não é o objetivo de ninguém que nos procura.
O que o caso do Ronald Read mostra não é o extremo da frugalidade. É o mecanismo. Dinheiro que sobra e é redirecionado em vez de ficar parado, tempo suficiente para render e decisões tomadas com critério em vez de impulso. Esse mecanismo funciona com valores pequenos e funciona com valores grandes. O que muda é a escala, não a lógica.
Aliás, é aqui que muita gente se engana: gastar menos não é poupar. Poupar é redirecionar aquilo que não gastaste para um sítio onde esse dinheiro trabalha por ti. Se o que não gastaste continua parado na conta à ordem, não poupaste. Adiaste.
O que acontece a quem vai adiando
Adiar também é uma decisão. A diferença é que se toma por omissão, sem que ninguém dê por ela, e os resultados só aparecem quando já é tarde para os corrigir com conforto.
Sem um plano financeiro, o caminho tende a ser sempre o mesmo:
1. Chegas à reforma dependente da Segurança Social. Sem nada construído em paralelo, a pensão pública passa a ser o teu único rendimento. E as projeções conhecidas apontam para uma quebra significativa face ao último salário auferido. Não é opinião nossa, é aritmética.
2. Vives em ansiedade financeira permanente. Sem fundo de emergência, cada imprevisto transforma-se numa crise. E imprevistos há para toda a gente, mais cedo ou mais tarde: o carro, a máquina que avaria, a despesa de saúde, os meses de trabalho a menos.
3. A casa própria fica sempre para o ano que vem. Ou, no cenário que mais vemos em Portugal, chegas à idade da reforma com crédito habitação ainda por pagar, a somar uma prestação a uma pensão já reduzida.
4. Não consegues responder aos objetivos da família. Ajudar os filhos nos estudos, dar uma mão a quem precisa, estar presente quando é preciso estar presente. Boa vontade, sozinha, não paga contas.
O conhecimento que faz a diferença (e que não se aprende na escola)
A boa notícia é que este conhecimento não exige um curso superior em finanças. Nem por sombras. São três coisas, e todas se aprendem.
1. Saber construir um plano financeiro. Saber quanto entra, quanto sai, quanto pode sobrar e para onde vai aquilo que sobra. Saber que objetivos tens, por que ordem os queres atingir e quanto custa cada um deles. Sem isto, tudo o resto é adivinhação.
2. Compreender os juros compostos e pôr o tempo a trabalhar por ti. Este é o ponto que mais confusão gera nas mensagens que recebemos. Os juros compostos não são um produto que se compra ao balcão nem uma taxa que alguém te garante. São um efeito, o efeito de o rendimento passar a gerar novo rendimento, e só acontece de forma relevante quando existe um horizonte longo e um instrumento adequado a esse horizonte. É por isso que o tempo é o único ingrediente que não se compra: quem começa mais cedo precisa de fazer muito menos esforço para chegar ao mesmo sítio.
3. Compreender o risco em vez de fugir dele. Fugir do risco parece prudente, mas também tem um custo, e esse custo raramente aparece no extrato. No mundo financeiro chama-se a isto mitigação de risco: não é evitar o risco a todo o custo, é perceber onde ele está e geri-lo com método. O que os dados históricos mostram é que, em horizontes longos, acima de dez anos, assumir risco de forma controlada e diversificada tende a compensar. Não é uma garantia, e rentabilidades passadas não asseguram rentabilidades futuras, mas é uma informação que vale a pena ter antes de decidires deixar tudo como está.
É também por aqui que se percebe porque é que a conversa não pode ficar toda pelo depósito a prazo ou pelos certificados de aforro. São instrumentos com o seu lugar, sobretudo para o dinheiro de curto prazo e para o fundo de emergência. Mas dificilmente são a resposta para objetivos que estão a vinte ou trinta anos de distância.
A escolha faz-se agora
Nada disto é urgente. É precisamente esse o problema.
Nenhuma destas decisões tem prazo de entrega. Ninguém te liga a avisar que hoje é o último dia para começares a construir o teu complemento de reforma. E por isso vai ficando para depois, ano após ano, até ao dia em que já não há tempo suficiente à frente para o tempo fazer aquilo que ele faz melhor.
A escolha faz-se agora, não porque exista uma data limite, mas porque cada ano que passa é um ano que não volta e que torna tudo o resto mais caro.
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Quer tenhas poupanças paradas a render quase nada, quer sintas que ao fim do mês não sobra nada, a verdade é que te falta exatamente a mesma coisa: um plano financeiro para ti e para a tua família. É sobre isso que vamos falar.
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Andreia e Tânia
Contas em dia®