Se tens dinheiro parado na conta à ordem e estás a pensar colocá-lo num depósito a prazo, não estás sozinho.
Os portugueses reforçaram fortemente os depósitos a prazo. Os depósitos à ordem e a prazo dos particulares em Portugal atingiram um máximo histórico, ultrapassando os 200 mil milhões de euros no final de 2025, evidenciando uma forte aposta das famílias na poupança segura. Apesar da descida nas taxas de juro para uma média de 1,36% a 1,37% em novos depósitos no início de 2026, o volume total aplicado continua a crescer, com as aplicações a prazo de até um ano a representarem 95% das novas operações.
Ou seja, mesmo com juros mais baixos, as famílias continuam a privilegiar segurança e previsibilidade. Mas isso levanta três questões importantes:
- O dinheiro está realmente seguro?
- Quando é que uma taxa de juro é considerada boa?
- Quando é que faz sentido ponderar alternativas aos depósitos a prazo?
Como funciona a segurança dos depósitos em Portugal
Uma das razões para esta preferência é simples: os depósitos bancários têm proteção legal.
Em Portugal, os depósitos à ordem e a prazo estão protegidos pelo Fundo de Garantia de Depósitos, que garante o reembolso até 100.000 euros por depositante, por banco, em caso de falência da instituição.
Isto significa que:
- 20.000 euros num banco estão totalmente protegidos
- 120.000 euros no mesmo banco só têm 100.000 protegidos
- 80.000 euros em dois bancos diferentes estão protegidos separadamente
Esta proteção ajuda a explicar porque, em momentos de incerteza, muitas famílias reforçam depósitos a prazo: o objetivo não é ganhar muito, é não perder capital nominal.
Mas é essencial distinguir a segurança nominal de preservação do poder de compra.
Os depósitos são seguros, mas isso não significa que façam o teu dinheiro crescer
Várias figuras públicas e responsáveis europeus têm alertado para este ponto.
Numa intervenção noticiada pelo Expresso, Maria Luís Albuquerque, atual comissária europeia para os Serviços Financeiros, afirmou que os depósitos bancários são vistos como seguros, mas que, na prática, “é seguro que perdemos dinheiro com eles”, referindo-se à perda de poder de compra ao longo do tempo quando os juros não acompanham a inflação.
Isto não significa que os depósitos sejam “maus”. Significa que têm uma função específica, diferente da de um investimento de longo prazo.
Quanto é um “bom” rendimento num depósito a prazo em 2026
Depois de anos com juros perto de zero, as taxas subiram e voltaram a descer parcialmente. Em 2026, a taxa média dos novos depósitos a prazo das famílias em Portugal ronda valores na ordem de 1 a 1,5 por cento, segundo dados do Banco de Portugal divulgados na imprensa económica.
Sempre que vês uma taxa de 2 por cento ou mais, já está acima da média. No entanto:
- Muitas dessas taxas são promocionais (novos clientes ou “dinheiro novo” na instituição bancária)
- Aplicam-se a prazos curtos (3, 6 ou 12 meses e não são renováveis)
- Têm limites de montante (alguns de 1000€ ou 5000€)
Além disso, há o impacto dos impostos. Os juros de depósitos estão sujeitos a 28% de imposto, o que reduz significativamente o rendimento líquido.
E, historicamente, mesmo com estas taxas, os depósitos a prazo não batem a inflação no longo prazo.
Depósitos a prazo não são investimento
Um investimento tem como objetivo fazer crescer o património ao longo do tempo, assumindo alguma oscilação. Um depósito a prazo tem como objetivo principal preservar capital e oferecer previsibilidade.
O rendimento é baixo porque o risco é também é muito baixo.
O problema surge quando os depósitos a prazo passam a ser vistos como estratégia de longo prazo, e não como uma ferramenta de curto prazo.
Então qual é o verdadeiro papel dos depósitos a prazo no teu PPI (plano pessoal de investimentos)
Depósitos a prazo e contas remuneradas continuam a ter lugar em 2026. Mas não para fazer o dinheiro realmente render e crescer.
Servem para proteger liquidez e não deixar o dinheiro totalmente parado.
Fazem sentido para:
- Fundo de emergência
O objetivo é segurança e acesso rápido, não rentabilidade máxima.
- Objetivos de curto prazo
Dinheiro para usar nos próximos meses ou poucos anos não deve estar exposto a grandes oscilações.
- Estacionamento temporário de dinheiro
Enquanto decides a estratégia, pode ser uma solução provisória.
As perguntas que deves fazer antes de escolher
Antes de colocares dinheiro num depósito a prazo, faz estas perguntas:
- Quando é que vou precisar deste dinheiro e quanta flexibilidade eu preciso?
- Este dinheiro é para segurança ou para crescimento?
- A minha preferência por depósitos a prazo estará relacionada com baixo nível de literacia financeira?
- Será que o pensamento “vou deixar tudo em depósito a prazo porque posso precisar” não é uma forma de adiar decisões financeiras mais estruturadas?
Porque, muitas vezes, o excesso de dinheiro parado não é prudência. É falta de plano.
“Resumindo e baralhando”:
No Contas em dia ®, onde acompanhamos famílias e trabalhadores portugueses desde 2009, sentimos na prática algo que os números também mostram: os portugueses têm uma enorme preferência por depósitos a prazo.
E essa preferência é compreensível. Segurança, previsibilidade e capital garantido dão tranquilidade. Mas também percebemos, no dia a dia, que muitas vezes esta escolha não é totalmente consciente. Está frequentemente ligada a baixos níveis de literacia financeira. Portugal continua nos últimos lugares do ranking da zona euro neste tema, e isso tem impacto direto na forma como as pessoas gerem o seu dinheiro.
Depósitos a prazo têm a sua função, sim. São úteis para proteger liquidez, para o fundo de emergência e para objetivos de curto prazo. O problema surge quando passam a ser usados para tudo, especialmente para objetivos de longo prazo.
O mercado financeiro, ou seja, investimentos como ações, ETFs, fundos de investimento e PPRs fundo, envolve risco, é verdade. Mas esse risco pode e deve ser compreendido, gerido e enquadrado num plano. Porque há um risco que quase nunca se fala: o risco de deixar poupanças de uma vida inteira paradas em depósitos a prazo.
Nesse caso, é praticamente certo que se está a perder poder de compra ao longo do tempo. De forma silenciosa, a inflação vai corroendo o património e a capacidade de poupança das famílias.
Melhorar o nível de literacia financeira e promover educação financeira não é para transformar toda a gente em especialista financeiro. É para permitir decisões mais conscientes, alinhadas com os objetivos de cada pessoa e com o prazo de cada poupança.
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E aproveita também para ver o nosso vídeo no YouTube onde explicamos, de forma simples, o papel dos depósitos a prazo e das contas remuneradas em 2026 e como integrá-los corretamente no teu PPI (plano pessoal de investimentos).