DEGIRO, Trade Republic ou banco tradicional? O guia para quem quer investir em Portugal

Como escolher sem pagar a mais nem arriscar as tuas poupanças

Por Andreia e Tânia, Contas em Dia®

“Qual é a melhor corretora?”  A resposta honesta: depende de ti

A Mariana tem 28 anos, 6.000 € poupados e quer começar a investir em ETFs. O banco onde tem conta cobra comissão por cada ordem de compra. Um colega sugeriu o DEGIRO. A irmã usa o Trade Republic. E a sogra garante que o banco é sempre mais seguro. Quem tem razão?

A verdade é que todos podem ter  porque a melhor corretora não é a mesma para toda a gente.

Acompanhamos investidores desde 2009. Ao longo desses anos, vimos o mercado português transformar-se de forma notável: quando a Andreia deu os seus primeiros passos como investidora, as corretoras low-cost simplesmente não existiam em Portugal. A primeira ordem de bolsa que colocou foi ao balcão de uma sucursal de um banco tradicional e custou quase 40 €. Uma só operação. Os preçários evoluíram significativamente desde então, e os pequenos investidores têm hoje ao alcance opções que antes eram impensáveis

Mas essa variedade também traz dúvidas. Neste artigo, vamos ajudar-te a perceber o que realmente importa na hora de escolher uma corretora: segurança, custos, produtos disponíveis e fiscalidade com exemplos concretos para que possas tomar uma decisão informada.

📌 No final do artigo encontras uma checklist com 10 perguntas essenciais para avaliar qualquer corretora antes de abrires conta. Guarda-a, vai ser útil.

Como saber se uma corretora é segura?

Esta é, provavelmente, a questão mais importante e uma das menos bem explicadas. Vamos simplificar.

Quem regula o quê

Em Portugal, a regulação dos intermediários financeiros que prestam serviços de investimento compete à CMVM (Comissão do Mercado de Valores Mobiliários). O Banco de Portugal supervisiona as instituições de crédito, ou seja, os bancos. Quando usas o Banco BEST, o ActivoBank ou o Banco Invest, estás a lidar com entidades reguladas em Portugal.

Já o DEGIRO e o Trade Republic estão registados na Alemanha e supervisionados pelo BaFin (Bundesanstalt für Finanzdienstleistungsaufsicht), uma das autoridades regulatórias mais exigentes da Europa. A Trade Republic foi mais longe e obteve em 2023 uma licença bancária completa junto do Banco Central Europeu (BCE) o que lhe confere um estatuto adicional de solidez.

Podes verificar se uma corretora está devidamente autorizada através do site da CMVM (www.cmvm.pt) ou consultando o registo da entidade reguladora do país de origem.

FGD vs. SII: a distinção que muita gente não conhece

Este é um dos pontos mais importantes deste artigo e um dos menos explicados em linguagem simples. Existem dois mecanismos de proteção distintos, e é fundamental não os confundir.

Fundo de Garantia de Depósitos (FGD)

Protege o dinheiro que tens guardado numa conta bancária (conta à ordem, poupança ou depósito a prazo). Em caso de insolvência do banco, garante a devolução até 100.000 € por titular, por instituição. Este fundo aplica-se ao Banco BEST, ao ActivoBank, ao Banco Invest e a todos os bancos portugueses.

Sistema de Indemnização aos Investidores (SII)

É um mecanismo diferente, gerido junto da CMVM, que protege o dinheiro entregue para investir e os instrumentos financeiros (ações, ETFs, obrigações) que estão à guarda de uma corretora ou intermediário financeiro. Em Portugal, o limite é de 25.000 € por investidor, por instituição. Para corretoras sediadas noutros países da União Europeia, o mínimo garantido por lei europeia é de 20.000€.

Resumindo de forma simples:

  • Dinheiro “guardado” no banco (conta à ordem, depósito a prazo): coberto pelo FGD, até 100.000 €.
  • Dinheiro e títulos numa corretora, destinados a investir: cobertos pelo SII (ou equivalente europeu), com limites entre 20.000 € e 25.000 €.

No caso do Trade Republic, por ser um banco licenciado pelo BCE, o dinheiro depositado beneficia da proteção do sistema de garantia de depósitos alemão até 100.000 € por titular à semelhança do que acontece nos bancos portugueses.

📌 Atenção: quando tens conta num banco que também oferece serviços de corretagem (como o Banco BEST ou o ActivoBank), podes beneficiar dos dois mecanismos em simultâneo: o FGD para os depósitos e o SII para os títulos. São proteções separadas e complementares.

Existe ainda um conceito fundamental que é muitas vezes esquecido: a segregação de ativos. Significa que os títulos que tens em carteira (ações, ETFs, obrigações) estão registados em teu nome não pertencem à corretora. Mesmo que a corretora falisse, os teus ativos continuam a ser teus.

O SII só seria acionado numa situação extrema em que a corretora, por alguma razão operacional ou de fraude, não conseguisse devolver os ativos. Em condições normais, a segregação é a tua principal proteção.

📌 Nenhum destes mecanismos protege contra perdas de mercado. Se o valor do teu ETF cair, isso é risco de investimento e está fora do âmbito de qualquer fundo de garantia. Investir implica sempre assumir esse risco.

Onde é que a corretora realmente ganha dinheiro?

Antes de falarmos em termos práticos é importante perceber qual é a comunicação que a corretora tem. Aquela publicidade de “faça dinheiro rápido” vai contra a nossa visão sobre os investimentos para os pequenos investidores uma vez que nós no Contas em dia® defendemos sempre investimentos no longo prazo e portanto não ser um investidor de comprar e vender várias vezes ao longo do seu plano pessoal de investimentos. 

Os custos são, muitas vezes, o fator que mais diferencia as opções disponíveis e o que mais impacto tem no teu retorno a longo prazo. Vamos decompô-los.

Os custos que toda a gente conhece

  • Comissão por ordem: cobrada cada vez que compras ou vendes um ativo. Pode ser um valor fixo (ex.: 1 € no Trade Republic) ou uma percentagem com mínimo definido (ex.: 0,25% com mínimo de 6,25 € no Banco BEST).
  • Custódia anual: valor cobrado por “guardar” os teus títulos. Pode ser uma percentagem sobre o valor da carteira ou um valor fixo por trimestre.

Os que muita gente ignora

  • Comissão de câmbio: aplicada quando compras ativos denominados em moeda diferente do euro (ex.: ações norte-americanas em USD). Pode representar uma percentagem sobre o valor da transação.
  • Comissão de inatividade: cobrada se não realizares operações durante um determinado período.
  • Comissão por levantamento: em algumas corretoras, levantar o dinheiro para a conta bancária tem custos (ex.: Trade Republic cobra 1 € em levantamentos abaixo de 100 €).
  • Spread: diferença entre o preço de compra e o preço de venda de um ativo. Pode ser invisível na plataforma mas tem impacto real no teu retorno.
  • Comissão sobre dividendos: alguns intermediários cobram uma percentagem sobre os dividendos recebidos. Confirma sempre no preçário.

Mini-cenário: o que custa investir 150 € por mês?

Para tornar isto concreto, imagina o João e a Filipa, um casal que quer investir 150 € por mês em ETFs. Ao longo de 12 meses, realizam 12 ordens de compra. Quanto pagam por corretora?

CorretoraCusto por ordemCustódia / anoCusto estimado / ano
DEGIRO~1 € (ETFs seleção popular)0 €~12 €
Trade Republic1 € (planos automáticos: gratuito0 €~12 € (ou 0 € com planos)
ActivoBank0 € (1.ª/mês) + 5 € (restantes)Incluída no serviço (3 €/mês)~91 € (55 € ordens + 36 € serviço)
Banco BEST0,25% mín. 6,25 € (online)0 Até 6 € + IVA / trimestre~105 € (~75 € ordens + ~30 € custódia)

📌 Valores ilustrativos, calculados com base nos preçários disponíveis à data de publicação. Os preçários mudam com frequência consulta sempre os sites oficiais antes de decidir. O custo anual acumulado ao longo de 10 ou 20 anos tem um impacto significativo no teu retorno total.

Produtos e perfil: não existe a corretora perfeita para todos

A melhor corretora não é a mais barata em termos absolutos é a que melhor se adapta ao teu perfil, aos teus objetivos e à fase em que estás como investidor.

Quem está a começar e quer simplicidade: Trade Republic

O Trade Republic tem uma das interfaces mais intuitivas do mercado, com uma app desenhada para tornar o investimento acessível a qualquer pessoa. Permite investir a partir de 1 €, criar planos de poupança automáticos sem comissão e aceder a mais de 11.500 ativos de mais de 30 mercados. Para quem quer começar com ETFs de forma regular e automática, é um excelente ponto de entrada.

Um ponto diferenciador: o dinheiro que tens parado na conta rende juros (cerca de 2% TANB à data de publicação, sujeito a alteração), o que é relevante para quem gere o seu fundo de emergência ou aguarda o ter o seu plano financeiro estruturado para começar a investir.

Quem quer variedade e já tem alguma experiência: DEGIRO

O DEGIRO oferece acesso a mais de 50 bolsas em 30 países, com uma gama muito alargada de produtos: ações, ETFs, fundos de investimento, obrigações, futuros, e mais. As comissões são competitivas e a plataforma tem ferramentas que os investidores mais experientes vão apreciar. Os pontos menos positivos:

– Não permite a compra de UP fracionadas;
– não remunera o dinheiro parado na conta, o que o torna menos adequado para quem também quer gerir liquidez na mesma plataforma.

Quem quer tudo num só lugar (com um custo): banca nacional

O Banco BEST, o ActivoBank e o Banco Invest oferecem um ecossistema mais completo: PPR, fundos de investimento, depósitos a prazo, conta bancária e corretagem num único lugar, com atendimento em português e regulação nacional. As comissões são mais elevadas, mas a integração, a conveniência e a facilidade de gestão centralizada têm valor real para muitos investidores especialmente quem prefere não ter o dinheiro disperso por várias plataformas.

Um ponto desfavorável das corretoras low-cost que poucos mencionam: o limite de um titular

A grande maioria das corretoras low-cost, incluindo o DEGIRO e o Trade Republic só permite contas individuais. Não existe a possibilidade de conta conjunta.

Para casais que investem em conjunto, isto significa obrigatoriamente duas contas separadas, com toda a logística associada: dois processos de abertura de conta, dois relatórios fiscais, duas declarações de IRS. Se a gestão partilhada das finanças é uma prioridade para vocês, os bancos tradicionais levam aqui uma vantagem clara (contanto com o respetivo custo).

A nossa posição sobre a Revolut 

A Revolut tem ganho popularidade como aplicação financeira e já conta com IBAN português. No entanto, para fins de investimento, não está entre as nossas opções preferidas. Não entraremos em detalhe aqui, mas se quiseres perceber as razões, pede-nos que escrevamos um artigo dedicado sobre esse tema.

Usabilidade, língua e suporte: os detalhes que fazem diferença

A melhor corretora também é aquela que consegues usar sem frustração. Há aspetos práticos que raramente aparecem nas comparações, mas que fazem toda a diferença no dia a dia.

  • App disponível em português? O DEGIRO, o Trade Republic, o Banco BEST, o ActivoBank e o Banco Invest têm suporte em português. Mas o nível de detalhe e a qualidade variam.
  • Que tipo de suporte está disponível? O Trade Republic funciona em modelo totalmente digital, sem linha telefónica geral o suporte é prestado exclusivamente através da app ou por e-mail. Para quem prefere falar com alguém, os bancos nacionais têm clara vantagem.
  • Quanto tempo demora a abrir conta? As corretoras low-cost têm processos 100% digitais, geralmente concluídos em menos de 48 horas. Os bancos tradicionais podem exigir documentação adicional, mas têm presença física se necessário.
  • Como funcionam os depósitos e levantamentos? Confirma sempre se são aceites transferências SEPA, qual o prazo para o dinheiro estar disponível e se existem comissões associadas. Na Trade Republic, por exemplo, levantamentos abaixo de 100 € têm uma comissão de 1 €.

Fiscalidade e IRS: o que confirmar antes de abrir conta

A fiscalidade é um tema que muitos investidores deixam para depois e isso pode complicar muito o preenchimento do IRS. Antes de abrir conta em qualquer corretora, verifica os seguintes pontos.

O que confirmar junto da corretora

  • A corretora emite relatório anual de transações? Essencial para preencher o IRS. A maioria das corretoras disponibiliza este documento, mas o formato e o nível de detalhe variam.
  • Faz retenção na fonte? Os intermediários sediados em Portugal retêm imposto automaticamente sobre dividendos; os intermediarios estrangeiros, cabe ao investidor declarar e liquidar. Saber isto com antecedência evita surpresas.
  • Os dividendos aparecem discriminados no relatório? A distinção entre mais-valias e dividendos é relevante para o preenchimento correto do Anexo J e do Anexo G do IRS.
  • A corretora disponibiliza guia de preenchimento do IRS? Algumas corretoras publicam guias específicos para investidores portugueses um detalhe valioso, especialmente para quem está a declarar pela primeira vez.

Contas estrangeiras: o dever declarativo no Anexo J

Se tens conta numa corretora estrangeira como o DEGIRO ou o Trade Republic, podes ter de declarar a conta bancária associada no Quadro 11 do Anexo J da declaração de IRS. Precisas do IBAN e do BIC da conta. Trata-se de um dever declarativo não implica pagar mais imposto, mas a omissão pode originar coimas.

📌 Este artigo tem caráter educativo e não substitui aconselhamento fiscal. Para a tua situação específica, consulta sempre um contabilista certificado ou consultor fiscal.

Tabela comparativa: Resumo das principais opções

Para facilitarmos a tua decisão, apresentamos um resumo comparativo das opções analisadas neste artigo. Confirma sempre os valores atualizados nos preçários oficiais.

DEGIROTrade RepublicBanco BESTActivoBankBanco Invest
RegulaçãoBaFin (DE)BaFin / BCE (DE)Banco de PortugalBanco de PortugalBanco de Portugal
ProteçãoSII até 20.000 €FGD até 100.000 € por titularFGD 100.000 € + SII 25.000 €FGD 100.000 € + SII 25.000 €FGD 100.000 € + SII 25.000 €
Comissão por ordem~1–3 €1 € (planos: gratuito)Mín. 6,25 € online
0 € (1.ª/mês) + 5 € seguintesVariável (consultar preçário)
Custódia anual0 € (ETFs seleção popular)0 €Até 6 € + IVA por trimestreIncluída no serviço (3 €/mês)Variável (consultar preçário)
Conta conjuntaNãoNãoSimSimSim
Juros sobre saldo paradoNãoSim (~2% TANB)Não (salvo depósitos à parte)NãoNão
Suporte em portuguêsSimSim (só digital)SimSimSim

📌 Valores indicativos à data de publicação. Os preçários são atualizados regularmente pelas instituições, verifica sempre as condições em vigor antes de tomares qualquer decisão.

Checklist final: 10 perguntas antes de abrir conta em qualquer corretora

Guarda esta lista. Antes de avançares com qualquer corretora, garante que tens respostas claras a estas 10 questões:

  1. Quem regula esta corretora e em que país está registada?
  2. Qual é o mecanismo de proteção aplicável? FGD ou SII? Qual o limite?
  3. Os meus ativos estão segregados do balanço da corretora?
  4. Qual é a comissão por ordem de compra/venda?
  5. Existe custódia anual? Em que condições é cobrada?
  6. Há comissão de câmbio? Qual a percentagem?
  7. Que produtos posso comprar? ETFs, ações, PPR, obrigações?
  8. A plataforma tem app em português e suporte acessível quando preciso?
  9. Permite conta com mais de um titular? (relevante para casais)
  10. A corretora fornece relatório anual para o IRS e guia de preenchimento?

Próximo passo: investe com clareza

Escolher uma corretora não tem de ser complicado mas tem de ser informado. Esperamos que este guia te tenha dado as ferramentas para tomares uma decisão com confiança.

Se depois de ler este artigo ainda tiveres questões sobre como começar a investir, qual das opções faz mais sentido para o teu caso, ou simplesmente quiseres perceber por onde começar temos uma conversa pensada para ti.

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Os conteúdos deste artigo têm caráter exclusivamente educativo e não constituem aconselhamento financeiro.

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