Contabilidade a olhómetro: o hábito invisível que te impede de poupar

Pergunta a ti mesmo quanto gastas por mês. É provável que tenhas um número na ponta da língua, dito com confiança. Agora abre os extratos dos últimos três meses e soma tudo ao cêntimo. A distância entre os dois valores tem um nome, contabilidade a olhómetro, e é, muito possivelmente, aquilo que está entre ti e a poupança que nunca aparece ao fim do mês.

O que é a contabilidade a olhómetro?

Contabilidade a olhómetro é gerir o dinheiro por estimativa. Sabes mais ou menos quanto entra, mais ou menos quanto sai, e segues a vida com a sensação de que está tudo controlado. O problema não é falhares a conta num mês. É falhares a mesma conta todos os meses, ano após ano.

O dinheiro raramente desaparece de uma vez. Desaparece 5€ de cada vez, todos os dias, sem que olhes para ele.

Não é preciso fazer nada de extraordinário para o orçamento resvalar 2.000€ num ano. Basta viver no piloto automático. São os 30€ por mês do café e do bolo a caminho do trabalho, que ninguém regista porque são «só uns trocos». É o jantar fora ou o takeaway de sexta que não estava planeado, mas aparece quase todas as semanas, e que sozinho leva 50€ a 60€ por mês. São as subscrições que se vão somando, o streaming que já não vês, a app que renovou sozinha, o ginásio a que foste duas vezes em janeiro, uns 35€ por mês que saem sem pedir licença. E são as compras por impulso, a peça em saldo, o gadget, as três coisas a mais no carrinho porque «já que estou aqui». Faz a soma: 30€, mais 55€, mais 35€, mais 50€ por mês são quase 2.000€ por ano a sair da tua vida sem que tomes uma única decisão consciente sobre eles.

Agora imagina o mesmo dinheiro do outro lado. Esses 2.000€ por ano, em vez de evaporarem, vão para a tua poupança e ficam investidos a uma taxa média de 7% (um valor de referência, usado aqui só para ilustrar). Ao fim de 15 anos, puseste lá 30.000€ do teu bolso. Mas a conta não mostra 30.000€: mostra cerca de 50.000€. Os quase 20.000€ a mais não vieram de ganhares mais nem de uma herança. Vieram dos juros, do teu dinheiro a trabalhar por ti enquanto dormias. É exatamente esta a diferença entre quem passa a vida a pagar juros e quem, a certa altura, começa a recebê-los. E o primeiro passo não é ganhar mais. É parar de gerir a olhómetro.

Os mesmos 2.000€ por ano que desaparecem sem dares por isso podiam ser 50.000€ daqui a 15 anos. A diferença chama-se plano financeiro.

Gastar menos não é poupar

Esta é das verdades mais difíceis de aceitar, mas é central: gastar menos e poupar são coisas diferentes. Aproveitar os saldos, apanhar um desconto, comprar em segunda mão, tudo isso é gastar menos. E gastar menos é bom.

Mas só vira poupança se o dinheiro que não gastaste sair da conta à ordem e for, de forma deliberada, para uma poupança. Se a peça que estava a 100€ ficou a 60€ e tu compraste à mesma, não poupaste 40€. Gastaste 60€. Os outros 40€ só são teus se forem para a poupança no momento seguinte. Caso contrário, ficam na conta à espera da próxima tentação, e tu sabes como é que essa história acaba.

As despesas fantasma

Há um tipo de gasto que quase ninguém contabiliza, porque parece invisível e inofensivo. O café a caminho do trabalho, a subscrição que renova sozinha, os portes de envio, o estacionamento, a app que custa 4,99€ por mês, o snack na bomba de gasolina. Uma a uma, são despesas que nem se sentem. Somadas ao longo do ano, pagam umas férias.

A estas chamamos despesas fantasma, e têm uma particularidade incómoda: aparecem em todas as famílias, mas instalam-se com mais força nas que ganham acima do salário mínimo. Quem vive no limite conta cada euro por obrigação. Quem tem alguma folga é precisamente quem se dá ao luxo de não contar. E é nessa folga, na zona em que os euros parecem não fazer falta, que o dinheiro escorrega sem ninguém dar por isso.

Aproveita o início do semestre para planear

Estamos em julho. Acabou de fechar o primeiro semestre do ano, e isso faz deste o momento perfeito para uma coisa simples que quase ninguém faz: olhar para trás antes de olhar para a frente. Vê o que gastaste nestes seis meses, com números reais, e usa isso para planear os seis que faltam até dezembro.

O ano passado é o teu melhor indicador. Se em setembro houve material escolar, vai haver outra vez. Se foste ao dentista em outubro é expectável que repitas novamente. Se em dezembro houve presentes e jantares de natal, vão repetir-se. Não é preciso ter uma bola de cristal para prever com alguma exatidão que as despesas podem não ser iguais mas rimam sempre em mês e valor! Planear não é adivinhar. É olhar para o que já aconteceu e assumir que a vida tende a repetir-se.

Constrói o teu Calendário OMG

A ferramenta que usamos para isto chama-se Calendário OMG. OMG significa Organizo os Meus Gastos, mas os nossos alunos chamam-lhe outra coisa: oh my God. É mais ou menos a reação de toda a gente quando o preenche pela primeira vez e vê, num só sítio, tudo o que aí vem ao longo do ano e de quanto dinheiro é preciso para ter estas contas em dia.

A ideia é simples. Pegas numa tabela com os doze meses do ano e identificas, em cada mês, todas as despesas que não são mensais. O segredo está exatamente aí: mapear as despesas que não fazem parte da rotina mensal, mas que sabes que vão acontecer.

Entram as obrigatórias, como seguros, IMI, IUC e outros impostos. Entram as de lazer e bem-estar, festas de aniversário, presentes, material escolar, consultas médicas, medicação pontual, vacinas que o Plano Nacional de Saúde não comparticipa. Entram a manutenção do carro, as idas ao mecânico, a roupa, sobretudo a das crianças, que parece nunca parar de crescer.

O objetivo é um só: transformar despesas previsíveis em despesas planeadas. Deixam de ser sustos e passam a fazer parte do teu plano. É a diferença entre dezembro chegar e tu já teres o dinheiro à espera, ou dezembro chegar e tu a perguntares outra vez para onde foi o ordenado.

Uma despesa previsível que apanha toda a gente de surpresa não é um azar. É falta de plano.

Calendário OMG - Planeamento Financeiro com despesas mês a mês

Calendário OMG

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