À primeira vista, combustível e prestação da casa parecem mundos separados: um é o que colocamos no depósito do carro, outro é o valor que o banco nos cobra todos os meses pelo crédito habitação. Na prática, estes dois temas estão muito mais ligados do que parece.

Quando o preço dos combustíveis dispara como nesta semana, isso pode alimentar a inflação. E quando a inflação sobe, é bem provável que as taxas de juro também subam logo a seguir. Esse movimento acaba por chegar à Euribor e, consequentemente, à prestação da casa de quem tem crédito habitação com taxa variável.
Neste artigo explicamos, passo a passo, como a subida dos combustíveis pode acabar por influenciar diretamente a prestação do crédito habitação
1. Do posto de combustível à inflação
Quando o preço dos combustíveis sobe rapidamente, o impacto não se limita ao custo das deslocações diárias.
A subida espalha-se por toda a economia:
- Transportar alimentos, matérias-primas e bens torna-se mais caro
- Empresas de logística e distribuição ajustam os preços
- Muitos negócios ficam com margens mais reduzidas e acabam por aumentar preços
Resultado: a inflação sobe.
Se esta subida vier acompanhada por aumentos no gás ou na eletricidade, o efeito pode ser ainda maior. A energia é um custo base para praticamente tudo: produzir, transportar, armazenar e vender.
Quando a energia sobe, a inflação tende a acompanhar.
2. Da inflação às taxas de juro na zona euro
O Banco Central Europeu (BCE) tem um objetivo claro: manter a inflação da zona euro perto dos 2% a médio prazo. Quando a inflação sobe muito acima desse valor e se mantém elevada durante algum tempo, o BCE utiliza a principal ferramenta que tem ao seu dispor: as taxas de juro diretoras.
A lógica é relativamente simples:
- Inflação elevada significa pressão sobre preços
- O BCE sobe as taxas de juro para travar a economia
- O crédito torna-se mais caro
- Famílias e empresas reduzem consumo e investimento
- A pressão sobre os preços tende a diminuir
Na prática, isto traduz-se em subidas das taxas de referência do BCE, que acabam por influenciar todo o sistema financeiro.
3. Das taxas do BCE à Euribor
Os bancos financiam-se entre si no mercado interbancário e é aí que surge a Euribor, a taxa que serve de referência para grande parte dos créditos habitação na Europa.
Quando o BCE sobe as taxas de juro:
- O financiamento dos bancos torna-se mais caro
- A Euribor tende a subir
- Os mercados antecipam futuras decisões do BCE, o que faz a Euribor mexer-se mesmo antes das reuniões
Ou seja, uma inflação elevada, muitas vezes impulsionada pelo aumento dos preços da energia e dos combustíveis, pode acabar por provocar subidas da Euribor.

Quadro 3 Evolução das Euribor a 6 meses desde 1999.
4. Da Euribor à prestação do crédito habitação
É aqui que o impacto chega às famílias.
Na maioria dos contratos de crédito habitação em Portugal, a taxa de juro é composta por:
Euribor + spread do banco
O spread mantém-se geralmente fixo durante o contrato, mas a Euribor é revista periodicamente.
Dependendo do contrato, essa revisão acontece de:
- 3 em 3 meses
- 6 em 6 meses
- 12 em 12 meses
Quando a Euribor sobe:
- A taxa total do crédito aumenta
- O banco recalcula a prestação (daí ser tão importante quando são as datas de revisão e não ser apanhado desprevenido)
- A mensalidade da casa pode subir!
Dependendo do valor em dívida e do prazo restante, o aumento pode representar centenas de euros por mês.
5. Então, a subida dos combustíveis aumenta a prestação da casa?
Diretamente, não. O preço dos combustíveis não entra na fórmula de cálculo do crédito habitação.
Mas existe um efeito indireto muito real:
- Combustíveis e energia sobem
- Os custos de produção e transporte aumentam
- A inflação sobe
- O BCE aumenta as taxas de juro (bom para quem tem poupanças)
- A Euribor sobe
- A prestação do crédito habitação com taxa variável pode aumentar
Foi exatamente este encadeamento que muitas famílias sentiram nos últimos anos.
6. O que podemos fazer para nos proteger
Perceber estas ligações ajuda-nos a preparar melhor o orçamento familiar.
Algumas estratégias que podem ajudar:
- Rever o orçamento mensal, para acomodar possíveis aumentos na prestação e nos custos com combustível
- Considerar amortizações parciais do crédito, quando existe margem financeira
- Falar com o banco para renegociar condições ou rever o prazo do empréstimo
- Avaliar se taxa fixa ou mista pode fazer sentido em determinados momentos
- Manter um fundo de emergência que cubra vários meses de despesas essenciais
Mais do que tentar prever todos os movimentos da economia, o mais importante é ter um plano financeiro que nos permita adaptar-nos quando o contexto muda.
Sabias que já tínhamos alertado para este risco?
Em 2021, quando a Euribor estavam negativas e as prestações do crédito habitação eram historicamente baixas, escrevemos um artigo onde explicávamos que a prestação da casa poderia subir para o dobro, caso as taxas de juro regressassem a níveis mais elevados. Na altura, muitas pessoas consideraram esse cenário demasiado alarmista. No entanto, pouco tempo depois, a inflação começou a subir de forma significativa, o Banco Central Europeu iniciou um ciclo de aumento das taxas de juro e a Euribor acompanhou esse movimento. Como consequência, muitas famílias viram a prestação do crédito habitação aumentar centenas de euros por mês.

Quadro 6: Evolução da Euribor 6 meses no nosso artigo e 31 Março 2024 representou a subida mais rápida de sempre.
Este é um bom exemplo de como a literacia financeira nos ajuda a compreender a lógica dos mercados financeiros e o impacto que as decisões económicas podem ter no nosso dia a dia. Quando percebemos estas relações, conseguimos tomar decisões mais prudentes, preparar melhor o orçamento familiar e evitar ser surpreendidos.
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