POUPANÇA · INVESTIMENTO
Portugal continua nos últimos lugares da Europa em literacia financeira. E isso tem uma consequência muito concreta na forma como guardamos o dinheiro: quando o único critério que conhecemos é “tem de ser seguro”, todas as poupanças acabam no mesmo sítio. No depósito a prazo. Nos certificados. Na conta à ordem, à espera de um destino que nunca chega.
Os números mostram isso mesmo. Em março de 2026, as famílias portuguesas tinham 201,7 mil milhões de euros em depósitos bancários, um recorde absoluto desde que o Banco de Portugal faz registos. E mais de 40% desse dinheiro está em depósitos à ordem, sem qualquer remuneração. Claramente estamos a esforçar-nos para poupar, mas isso não chega.
“É seguro que se perde dinheiro”
A frase não é nossa. É de Maria Luís Albuquerque, antiga ministra das Finanças e atual Comissária Europeia responsável pelos Serviços Financeiros e pela União da Poupança e do Investimento. Em 2025, numa conferência da CMVM, avisou que, enquanto no mercado de capitais existe risco de perda, nos depósitos existe hoje uma certeza de perda. Vindo de quem tutela as poupanças de toda a União Europeia, não é uma frase para ignorar.
E a explicação é matemática, não é uma opinião de quem é graduado em Economia ou Gestão. Em março de 2026, os novos depósitos a prazo em Portugal rendiam em média 1,48% ao ano, uma das remunerações mais baixas de toda a zona euro. A inflação, essa, ronda os 3%. Sempre que a inflação corre acima do juro do teu depósito, o teu dinheiro compra menos no fim do ano do que comprava no início. O saldo cresce, o poder de compra encolhe.
Um depósito que rende 1,48% num país com 3% de inflação não está a guardar o teu dinheiro. Está a encolhê-lo devagar.
O lugar certo dos depósitos e dos certificados
Atenção: isto não faz dos depósitos a prazo ou dos certificados de Aforro (ou até mesmo dos Certificados do Tesouro) produtos maus. Faz deles produtos com um trabalho específico. E nesse trabalho, são imbatíveis.
O fundo de emergência deve estar num sítio líquido, estável e sem sustos: depósito ou certificados servem na perfeição. O mesmo vale para objetivos a menos de 3 anos, como a entrada para a casa, o carro ou as obras. Nestes prazos, a estabilidade vale mais do que a rentabilidade, porque não podes correr o risco de o dinheiro valer menos precisamente no mês em que precisas dele.
O problema começa quando pedimos a estes produtos o trabalho errado: fazer crescer as poupanças dos filhos, construir um complemento de reforma (que todos sem exceção precisamos), garantir património a 20 ou 30 anos. Para prazos longos, deixar tudo a 1,4% não é prudência. É a garantia de chegar ao destino com muito menos do que podias.
“Onde é que eu arranjo essa poupança de 7%?”
Sempre que publicamos simulações de longo prazo com taxas de 7%, as perguntas nos comentários repetem-se: “onde é que arranjo essa poupança?”, “vou ao banco pedir um investimento que renda 7%?”.
A resposta é: não vais. Esse produto não existe “ao balcão”. Nenhum depósito, certificado ou seguro de capital garantido te vai pagar 7% ao ano. Se alguém te prometer isso com capital garantido, desconfia, e desconfia muito.
Os 7% não são uma taxa contratada. São uma referência da rentabilidade média anual que os mercados acionistas globais entregaram historicamente em períodos longos, com anos excelentes e anos terríveis pelo meio. Quem investiu de forma diversificada e ficou investido durante décadas captou essa média. Quem procurou uma linha reta de 7% garantidos todos os anos nunca a encontrou, porque não existe.
Para perceberes o que está em jogo, fizemos as contas. Imagina 150€ por mês durante 25 anos, ou seja, 45 mil euros de esforço de poupança. Num depósito a 1,4%, terminas com cerca de 54 mil euros, antes de impostos. A uma média de 7% ao ano, o mesmo esforço transforma-se em cerca de 121 mil euros. Mais do dobro. E a diferença não vem de ganhares mais nem de poupares mais. Vem do instrumento onde o dinheiro esteve e do tempo que lá ficou a trabalhar.
O mesmo esforço. O mesmo prazo. Mais do dobro do resultado. A diferença chama-se juro composto.
Que risco é esse, afinal?
É aqui que a literacia faz toda a diferença. Investir com risco não significa apostar. Significa aceitar que o valor do investimento sobe e desce ao longo do caminho. Existem anos em que os mercados caem 20% ou 30%. Faz parte (e a pandemia Covid-19 ainda está bem presente na nossa memória). A volatilidade só se transforma numa perda real quando vendes no pior momento.
Os verdadeiros riscos de quem investe são outros, e quase todos se controlam com preparação:
- Prazo desajustado. Investir em ações dinheiro de que vais precisar daqui a dois anos é pedir para vender numa queda. Os mercados precisam de tempo para entregar a média. Sem prazo longo, não há plano que resista.
- Falta de diversificação. Pôr as poupanças todas numa empresa, num setor ou na moda do momento é o oposto de investir. Diversificar por centenas ou milhares de empresas e geografias dilui o impacto de qualquer desastre individual.
- O teu próprio comportamento. Vender em pânico quando cai, comprar por euforia quando está nos máximos. As maiores perdas de quem investe raramente vêm dos mercados. Vêm das decisões tomadas com noites mal dormidas e de ansiedade financeira.
- Custos e impostos ignorados. Comissões de 1,5% ou 2% ao ano parecem inofensivas e comem uma fatia enorme do juro composto em 20 anos. Conhecer os custos de cada produto é metade da decisão.
E há uma frase que vais encontrar em todos os documentos oficiais destes produtos e que deves levar à letra: rentabilidades passadas não são garantia de rentabilidades futuras. A média histórica é uma referência para planear, não é um contrato assinado.
Exemplos acessíveis (e o que têm em comum)
Não fazemos aconselhamento de investimento e nada do que se segue é uma recomendação de compra. Mas a literacia também se constrói com exemplos concretos. Aqui ficam três instrumentos reais, acessíveis à maioria das pessoas em Portugal, que mostram como se pode ter exposição de longo prazo aos mercados:
- Um ETF global de acumulação. O Vanguard FTSE All-World (VWCE) investe em milhares de empresas de dezenas de países numa única subscrição, com um custo anual de 0,19%. Subscreve-se através de uma corretora e é um dos instrumentos mais usados na Europa para investir a longo prazo de forma diversificada.
- Uma cabaz de ações com gestão profissional em “formato PPR”. O Save and Grow, da Casa de Investimentos, permite investir com reforços programados a partir de montantes acessíveis, com uma equipa profissional a gerir a carteira por ti. Filosofia de investimento que vale a pena analisar.
- Um PPR já com bom histórico. O PPR Alves Ribeiro, do Banco Invest, é um exemplo de plano poupança reforma com décadas de histórico e exposição a ações e obrigações, ao qual acrescem os benefícios fiscais próprios dos PPR.
O que têm os três em comum? São de acumulação: os rendimentos gerados são automaticamente reinvestidos, sem dependerem da tua disciplina para o fazer. É o juro composto a trabalhar em piloto automático, mês após mês, ano após ano.
Antes de subscrever qualquer um deles, precisas de perceber como funciona a subscrição, que custos existem, qual é a fiscalidade e, sobretudo, como vais reagir quando o valor cair 20% num ano. Porque vai acontecer. Não sabemos quando, mas vai. E é nesse dia que se separa quem tem um plano de quem tem apenas um produto.
Nota de transparência
O Contas em dia® não tem patrocínios, parcerias comerciais nem acordos de remuneração com bancos, corretoras, gestoras de ativos ou qualquer intermediário financeiro. Os exemplos referidos neste artigo são exclusivamente ilustrativos e não existem links de afiliados escondidos. Tudo o que partilhamos reflete a nossa opinião genuína, sem qualquer influência externa. A nossa única “parceria” é contigo.
Os conteúdos deste artigo têm caráter exclusivamente educativo e não constituem aconselhamento financeiro nem recomendação de investimento. Rentabilidades passadas não são garantia de rentabilidades futuras.
Andreia e Tânia
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